Grandes Nomes do Cordel #2 - João Martins de Athayde

João Martins de Athayde (Fonte: Memórias do Cordel)
"Athayde tornou-se, sem exagero, um verdadeiro ídolo popular. Não apenas da gente pobre e humilde, semi-alfabetizada e mesmo analfabeta, do interior - zona da mata, principalmente - das da gente remediada e rica das zonas urbanas e até capitais e cidades importantes, entre elas, Salvador, o Recife, Fortaleza, Caruaru, Campina Grande e Garanhuns”
Waldermar Valente
É com essas palavras de Waldemar Valente que damos continuação à série de postagens Grandes Nomes do Cordel, o nome dessa vez é de João Martins de Athayde que foi um dos maiores editores de folhetos do Brasil, ele nasceu no povoado de Cachoeira de Cebolas (hoje denominada Itaituba), município de Ingá do Bacamarte, Paraíba, no dia 23 de junho de 1880 (segundo o escritor pernambucano Mário Souto Maior, a data correta do nascimento de Athayde é 23 de junho de 1877).

Athayde, que também foi poeta, nunca frequentou uma escola e aprendeu a ler e escrever sozinho. Segundo o próprio poeta, seu interesse por poesia popular começou aos 8 anos de idade quando assistiu pela primeira vez a um desafio de Pedra Azul, um famoso cantador da região. Aos 12 anos, o jovem fez sua primeira rima.

Em 1898, em virtude da seca, Athayde migrou da sua cidade natal para Camaragibe, um município da Região Metropolitana do Recife-PE, mudando-se, posteriormente para a capital, onde trabalhou como auxiliar de enfermagem no Hospital Português.

O primeiro folheto publicado pelo poeta, intitulado, O Preto e O Branco Apurando Qualidade foi escrito em 1908 e foi impresso na Tipografia Moderna. A partir daí, o poeta começou a vender folhetos de sua autoria e de outros em feiras e mercados do Recife. Seus folhetos abrangiam todo o tipo de público, desde os sertanejos até a elite intelectual. De acordo com Waldemar Valente:
"Era homem alfabetizado e lido em diversos assuntos e especialidades. Conhecia Castro Alves, Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias. Dominava a nomeclatura geográfica, conhecia os nomes populares de animais e plantas, sem desprezar a colaboração que a mitologia e a história, poderiam dar à poesia." (VALENTE, 1976, p55)
 Em 1909, conseguiu montar uma pequena tipografia na Rua do Rangel, bairro de São José (perto do mercado), vindo a se tornar, posteriormente, um dos maiores editores de folhetos de cordel do Brasil. Durante os mais de 40 anos de funcionamento, passaram pela editora grandes poetas e vários clássicos da literatura de cordel foram publicados.

A guinada da editora aconteceu a partir de 1921 quando Athayde comprou da viúva de Leandro Gomes de Barros, por seiscentos mil réis, os direitos de publicação de toda a obra do poeta paraibano. Inicialmente, o poeta republicava os folhetos se intitulando apenas como editor proprietário, mas com o tempo, ele foi retirando a informação de autoria de Leandro, chegando até ao ponto de modificar os acrósticos de alguns poemas. Essa ação de Athayde dificultou o trabalho de pesquisadores em fazer o levantamento de toda a obra de Leandro Gomes de Barros.

Waldemar Valente defende o editor:
"É certo que alguns de seus poemas foram por Athayde publicados. No entanto, vale a pena chamar a atenção para uma particulariedade importante: quando Athayde publicava versos que não eram seus, não colocava o nome do autor, saindo apenas 'Editor João Martins de Athayde'. É claro que aqui se percebe o lado comercial. Leandro já estava esquecido. As novas gerações não o conheciam. O nome realmente conhecido era o de Athayde. Valia como um poderoso cartaz de propaganda. Daí, sair o seu nome impressionando o povo que, não se apercebia que ele era só o editor." (VALENTE, 1976, p59)
A editora de Athayde alcançou um grande prestígio diante de seu público, os folhetos que tivessem a sua marca tinham sucesso garantido. Foi ele quem desbravou a indústria de folhetos de cordel, industrializando e comercializando folhetos por todo o país, através de uma eficaz rede de agentes e folheteiros. Essas iniciativas do editor possibilitaram que vários poetas pudessem viver exclusivamente da poesia. Outra importante iniciativa foi a criação de contratos de edição com o pagamento de direitos de propriedade intelectual, assim como na apresentação gráfica dos folhetos.

Foi também Athayde um dos responsáveis pela popularização da produção de folhetos com capas ilustradas, de acordo com Rosilene Melo, Athayde recorria a desenhistas e caricaturistas que trabalhavam para o Jornal do Recife e para o Diário da Manhã para produzirem as ilustrações de seus folhetos (MELO, 2010, p.107).

A Mulher Roubada, folheto publicado pela editora de Athayde (Fonte: Fundaj)

Em 1949, o poeta e editor sofreu um acidente vascular cerebral, tendo que se afastar de suas atividades. Por conta disso, Athayde vende os direitos de edição de sua tipografia para José Bernardo da Silva, proprietário da Tipografia São Francisco, localizada em Juazeiro do Norte-CE. João Martins de Athayde morreu no dia 7 de agosto de 1959, na cidade de Limoeiro, Pernambuco, onde viveu seus últimos anos de vida.

Para Liêdo Maranhão, pesquisador da cultura popular, Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde deveriam ter um monumento na Praça do Mercado de São José, pelos relevantes serviços prestados à poesia e ao folclore nordestino.

Apesar dos problemas envolvendo a questão de autoria, atribui-se ao poeta cerca de 60 títulos, dos quais destam-se: Amor de Perdição, O Segredo da Princesa, A Pérola Sagrada, O Estudante que se Vendeu ao Diabo, O Prisioneiro do Castelo da Rocha Negra e O Lobo do Oceano, Um Amor Impossível, O Segredo da Princesa, A Pérola Sagrada.

Mais informações:
Câmara Brasileira
Fundação Casa de Rui Barbosa
Fundação Joaquim Nabuco

MELO, Rosilene Alves de. Arcanos do Verso: Trajetórias da literatura de cordel. Fortaleza: 7 Letras, 2010.
VALENTE, Waldemar. João Martins de Ataíde: um depoimento. Recife, Revista pernambucana de Folclore, mai.-ago. 1976.
VILA NOVA, Sebastião. João Martins de Ataíde: artista popular e enpresário urbano. Recife: Fundação Joaquim Nabuco – Centro de Estudos Folclóricos, 1985. 4p (Folclore, 162).

Como citar essa postagem: 
MEMÓRIAS DO CORDEL. Grandes Nomes do Cordel #2 - João Martins de Athayde. Disponível em: <http://memoriasdocordel.blogspot.com/2013/04/grandes-nomes-do-cordel-2-joao-martins.html>. Acesso em: dia Mês Ano.

2 comentários:

Marco Haurélio disse...

Dos últimos títulos citados, "Os martírios de Jorge e Carolina", versão do romance "A Viuvinha", de José de Alencar, é de José Galdino da Silva Duda. A justificativa de Valdemar Valente, em defesa de Athayde, não é corroborada por autores contemporâneos de Athayde, como longevo Luís da Câmara Cascudo, que em "Vaqueiros e Cantadores", afirma, emulando Chagas Batista ser Leandro o mais lido de todos os autores populares. Discussões à parte, Athayde foi um grande poeta e anda a merecer mais edições de suas obras, como "Um Amor Impossível", "O Segredo da Princesa" e "A Pérola sagrada".

Memórias do Cordel disse...

Obrigado pela contribuição Marco Haurélio

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