Editoras do Cordel #1 - Tipografia São Francisco

Lira Nordestina (Fonte: Acervo Memórias do Cordel) 

A Tipografia São Francisco foi uma editora de cordel que funcionou em Juazeiro do Norte entre os anos de 1932 a 1982. A editora foi fundada em 1932 com o nome de “Folhetaria Silva” pelo alagoano José Bernardo da Silva, que havia chegado à cidade em 1926 atraído pelas histórias de poetas e romeiros sobre a mítica cidade de Juazeiro do Norte e os milagres do patriarca Pe. Cícero.

 José Bernardo da Silva (Fonte: Acervo Lira Nordestina)

Em 1939 a “Folhetaria Silva” passou a se chamar Tipografia São Francisco. 10 anos depois, em 1949, José Bernardo deu um passo importante para o sucesso da Tipografia São Francisco, comprou os direitos autorais de João Martins de Athayde que era dono da maior editora de cordéis da época e detinha os direitos autorais de Leandro Gomes de Barros. A partir de então a Tipografia de José Bernardo foi se transformando na mais importante editora de folhetos do país.

A Tipografia passou a ter encomendas de todo o país e teve de aumentar sua maquinaria, adquirindo mais duas com capacidade de imprimir 16 páginas de uma só vez. O número de funcionários também aumentou, passando para 12 trabalhadores. Após a aquisição de novas máquinas no início da década de 1950, a produção diária atingiu o numero de 10.000 romances de 32 ou mais páginas.

Cabe ressaltar aqui que a Tipografia São Francisco teve papel fundamental na popularização da xilogravura nas capas de cordel. Ela surgiu como alternativa de baixo custo e rápida distribuição para os folhetos, pois os clichês de metal que ilustravam as capas dos cordéis na época demoravam dias para chegar a Juazeiro, pois vinham de Recife ou Fortaleza. As xilogravuras no início eram confeccionadas por Damásio Paulo da Silva, Mestre Noza, Manoel Santeiro, João Pereira e Walderedo Gonçalves. Essa iniciativa de José Bernardo fez com que a cidade de Juazeiro do Norte se tornasse uma referência na arte da xilogravura até hoje.

 Historia de Juvenal e Leopoldina (Fonte: Fundaj.gov.br)

A produção de cordéis começou a entrar em decadência em meados da década de 1950 por uma soma de fatores, como as políticas desenvolvimentistas do governo Kubitschek e o encarecimento do papel. A inflação de 1964 aumentou ainda mais a crise das editoras de cordel, levando a grande maioria a fechar.

Além de toda crise na produção de cordéis, uma sequência infeliz de mortes abalou José Bernardo e sua Tipografia, entre elas dois de seus filhos em um intervalo de 11 anos (1959 a 1970). Todos esses acontecimentos abalaram profundamente o editor que veio a falecer no dia 23 de outubro de 1972. Pouco tempo depois, 10 meses, sua esposa Ana Vicência também vem a falecer.

A partir de então, a filha Maria de Jesus da Silva Diniz passou a dirigir a Tipografia, houve uma discreta melhora na produção, mas não demorou muito. Em 1980, por sugestão do poeta Patativa do Assaré, a Tipografia São Francisco passou a se chamar Lira Nordestina. Pouco tempo depois, em 1982, Maria de Jesus, não resistindo à crise, vendeu a Lira Nordestina para o Governo do Estado do Ceará.

Em 1988 quando, a Lira Nordestina passou a ser patrimônio da Universidade Regional do Cariri (URCA). Durante esse tempo, a Lira Nordestina mudou de endereço várias vezes. Atualmente funciona no campus Pirajá da URCA. Para quem tem interesse, vale a pena visitar a Lira Nordestina e conhecer o maquinário antigo da Tipografia São Francisco, os tipos móveis, matrizes e cordéis históricos que foram editados lá.

Aos que se interessarem em estudar mais a fundo sobre a história da Tipografia São Francisco, indico o livro “Arcanos do verso: trajetórias da literatura de cordel” da professora Rosilene Melo e também a minha monografia “Memórias do Cordel: O Legado da Tipografia São Francisco para o Design Brasileiro”.

Mais informações:
Lira Nordestina
Av. Castello Branco, 150, Bairro Romeirão - Juazeiro do Norte/CE
Funcionamento: Segunda à Sexta das 8h às 12h, 13h às 17h e Sábado das 8h às 12h

Como citar essa postagem: 
MEMÓRIAS DO CORDEL. Editoras do Cordel #1 - Tipografia São Francisco. Disponível em: <http://memoriasdocordel.blogspot.com.br/2012/12/editoras-do-cordel-1-tipografia-sao.html>. Acesso em: dia Mês Ano.

2 comentários:

***camilinha*** disse...

Que interessante isso, não sabia dessa tipografia. Muito boa a matéria.

Carolina de Moura Silva disse...

Adorei, ótima informação para nós cearenses e apaixonados por cordel.

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