Xilógrafos Nordestinos #2 - Walderêdo Gonçalves

Walderêdo Gonçalves (Fonte: Secult Ce)
Meu nome é Walderêdo Gonçalves de Oliveira (...) Nasci em Crato em 19 de abril de 1920, numa segunda-feira, às duas horas da tarde. O nome Walderêdo vem de um bispo italiano.” (TEMÓTEO, 2002, p.53)
É com essas palavras de Walderêdo em entrevista para o autor Jurandy Temóteo, que iniciamos esta segunda postagem da série Xilógrafos Nordestinos. Walderêdo Gonçalves pode ser considerado um dos maiores xilógrafos da primeira metade do século XX com peças expostas em vários museus pelo mundo.

Filho de um pai carpinteiro e uma mãe artesã, Walderêdo teve uma infância difícil, trabalhou desde cedo pra ajudar à família. Não terminou os estudos, pois foi expulso por ter desenhado uma mulher nua, mas o jovem não deixou de estudar, começou a ler por conta própria livros de história, geografia, atlas, romances de autores como José de Alencar, M. Delly, Humberto de Campos e também folhetos de cordel.

Seu sonho era ser inventor:
Eu sempre fui um admirador de Thomaz Alva Edson, o grande inventor; de Hudson, de George Stefferson... sempre estudei muito esse povo, esses inventores (...) Quando eu pegava aqueles livros de Joaquim Silva, de Jonas Serra, que escreviam sobre história, eu dizia: ainda vejo meu nome num livro desses, assim também.” (TEMÓTEO, 2002, p.58)
Walderêdo fez sua primeira xilogravura aos 15 anos de idade, quando trabalhava como tipógrafo na livraria e tipografia de Pergentino Maia, relata ele:
"A minha primeira xilogravura, feita em 1935, foi por acaso. José Bernardo da Silva, que era cliente da tipografia, pois só muito tempo depois foi que ele teve a sua em Juazeiro, fez encomenda de um folheto de orações. Como não tinha nada pra ilustrar a capa, me perguntaram, meio incrédulos, se eu não podia fazer uma xilogravura. Fui para casa almoçar, fiz um taco de madeira, talhei e deu certo. De tarde, quando voltei, a xilogravura do Coração de Jesus estava pronta." (TEMÓTEO, 2002, p.61)
A partir daí o jovem artista passou a fazer xilogravuras sobe encomenda para a Tipografia de José Bernardo da Silva. Sua fama foi crescendo e Walderêdo passou a ter encomendas de várias outras gráficas da região como a de Manoel Caboclo, Mascote, Gilberto Sobreira (irmão de Geová Sobreira) e a Diocese do Crato.

 Xilogravura de Walderêdo na capa do folheto História de Juvenal e o Dragão (Fonte: www.casaruibarbosa.gov.br)
 
As xilogravuras de Walderêdo não se limitaram apenas a capas de folhetos, ele produziu xilogravuras para rótulos de vários produtos como bebidas, cigarros, sabão e capas de livros. Ele fez também xilogravuras em formatos maiores para serem expostas em museus pelo mundo.

Walderêdo relata que para criar seus desenhos ele lia as histórias, idealizava os desenhos e fazia. A preocupação com os detalhes de seus desenhos e o domínio ímpar da técnica de luz e sombra em suas peças chamou a atenção dos estudiosos.

Xilogravura de Walderêdo (Fonte: O Nordeste)

Sua projeção nacional e internacional aconteceu na década de 1960 quando foi feita sua primeira exposição na Faculdade de Filosofia do Crato. Outra iniciativa que o projetou foi a do Museu de Arte da Universidade do Ceará (MAUC) que enviou os emissários Sérvulo Esmeraldo e Lívio Xavier ao Cariri para comprar tacos e encomendar xilogravuras para compor o acervo da instituição, entre essas encomendas estava o álbum “Apocalipse” de Walderêdo. Além do Apocalipse o acervo do MAUC conta com diversas outras gravuras do xilógrafo.

Além de xilógrafo, Walderêdo trabalhou como profissional de jogo do bicho, tipógrafo, torneiro-mecânico, pintor, eletricista, carpinteiro e até abriu cofres. Ele casou com D. Ione Gonçalves em 1943 e desse casamento tiveram 10 filhos.

Em 2004, recebeu o diploma de Mestre da Cultura Tradicional Popular dado pelo Governo do Estado, numa ação inédita de preservação e proteção do patrimônio imaterial cearense. Esse diploma conferia um auxílio financeiro mensal e vitalício ao artista no valor de um salário mínimo além de ser um reconhecimento institucional do seu empenho técnico e artístico na produção e preservação da cultura tradicional popular de sua comunidade.

Walderêdo faleceu em 2005, aos 85 anos de idade, na cidade do Crato vítima de uma parada cardíaca.

Mais informações:
O Nordeste

TEMÓTEO, Jurandy. A xilogravura de Walderêdo Gonçalves no contexto da cultura popular do Cariri. Crato: A Província, 2002.
CARVALHO, Gilmar de. Memórias da xilogravura. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2010.

Como citar essa postagem: 
MEMÓRIAS DO CORDEL. Xilógrafos Nordestinos #2 - Walderêdo Gonçalves. Disponível em: <http://memoriasdocordel.blogspot.com/2013/05/xilografos-nordestinos-2-walderedo.html>. Acesso em: dia Mês Ano.

Um comentário:

Irinéia Pinheiro disse...

Saudades do meu querido pai.Grande mestre da cultura brasileira.(xilografo)

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